Os Tipos de Epilepsia Infantil: Entendendo as Síndromes Epilépticas

Por Dra. Paula Girotto
Publicado em 22 de outubro de 2026
Síndromes Epilépticas
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⚡ Resposta Rápida | A epilepsia infantil não é uma doença única. O termo funciona como um guarda-chuva para diferentes síndromes epilépticas classificadas pela Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE). Os tipos variam de formas autolimitadas que desaparecem sozinhas na adolescência até encefalopatias epilépticas graves com múltiplos tipos de crises. Identificar a síndrome correta define os remédios certos e o prognóstico da doença.

O que é uma síndrome epiléptica e por que é importante identificá-la?

Na neurologia infantil, a epilepsia não é vista como uma doença única. Quando o médico consegue reunir os tipos de crises, a idade da criança, os resultados do eletroencefalograma (EEG) e o padrão de desenvolvimento, ele fecha o diagnóstico de uma síndrome epiléptica.

A Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) organiza as epilepsias da infância em três grandes categorias. Mais da metade das crianças com primeira crise antes dos 2 anos se encaixam em uma dessas categorias — o que define os remédios certos e o futuro do tratamento.

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Quais são as epilepsias focais autolimitadas?

São condições consideradas benignas e mais leves. O termo ‘autolimitada’ significa que a doença tem um tempo para começar e para terminar, desaparecendo sozinha conforme a criança cresce e o cérebro amadurece.

  • Epilepsia com espículas centrotemporais — SeLECTS (antiga Epilepsia Rolândica): A forma mais comum de epilepsia focal na infância. As crises acontecem quase sempre à noite e envolvem contrações e formigamento no rosto e na boca.
  • Síndrome de Panayiotopoulos (crises autonômicas): Crises longas que causam vômitos, palidez e suor frio.
  • Epilepsia occipital visual da infância: Crises com alucinações visuais rápidas ou cegueira temporária.
  • Epilepsia occipital fotossensível: Crises desencadeadas por estímulos luminosos e piscadas de luz.

Quais são as epilepsias generalizadas na infância?

Nessas síndromes, os disparos elétricos anormais afetam os dois lados do cérebro ao mesmo tempo. Compreendem três tipos principais:

  • Epilepsia de ausência infantil: Uma das formas mais frequentes, representando cerca de 20% de todas as epilepsias pediátricas. A criança apresenta dezenas de episódios diários em que ‘desliga’ do ambiente por alguns segundos, fixando o olhar.
  • Epilepsia com ausências mioclônicas: Crises de desligamento acompanhadas por abalos musculares nos braços e ombros.
  • Epilepsia com mioclonia palpebral: Crises marcadas por piscadas rápidas e descontroladas dos olhos, geralmente desencadeadas ao fechar as pálpebras ou olhar para a luz.

O que são as encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento?

Este é o grupo mais complexo e severo. O termo ‘encefalopatia’ indica que a própria atividade elétrica desregulada da epilepsia agride o cérebro, provocando atrasos graves no desenvolvimento, perda de habilidades já adquiridas e alterações de comportamento.

  • Síndrome de Lennox-Gastaut: Condição grave marcada por múltiplos tipos de crises diárias (incluindo quedas bruscas) e forte resistência aos remédios comuns.
  • Epilepsia com crises mioclônico-atônicas: Solavancos rápidos seguidos por perda total de força muscular.
  • Encefalopatia com ativação de espícula-onda no sono: Descargas elétricas contínuas durante o sono profundo, gerando regressão escolar e cognitiva.
  • Síndrome FIRES (relacionada a infecção febril): Condição rara onde crises gravíssimas começam logo após febre simples.

Quais síndromes epilépticas começam nos primeiros meses de vida do bebê?

Algumas síndromes graves surgem muito cedo — no período neonatal ou nos primeiros meses de vida. Elas exigem diagnóstico imediato:

  • Espasmos Infantis (Síndrome de West): Uma das encefalopatias mais importantes da primeira infância. O bebê apresenta crises em forma de flexões repetidas do tronco e dos braços (espasmos), associadas a EEG muito desorganizado (hipsarritmia). O diagnóstico e o tratamento precoces são urgentes.
  • Síndrome de Dravet: Epilepsia genética grave (gene SCN1A) desencadeada fortemente por febre ou banhos mornos no primeiro ano de vida. Exige medicamentos específicos e evitação de certas classes de remédios que podem piorar o quadro.
  • Epilepsia com crises focais migratórias: Condição rara onde as crises começam em uma parte do cérebro e ‘migram’ para outras regiões durante o mesmo episódio.

Qual é o prognóstico comparado entre as principais síndromes?

A tabela abaixo resume o início típico e o prognóstico das principais síndromes epilépticas infantis:

SíndromeInício típicoPrognóstico
Epilepsia Rolândica (SeLECTS)3–13 anosExcelente — remissão espontânea garantida até os 18 anos
Epilepsia de Ausência Infantil4–10 anosMuito bom — 86% das crianças curam até os 14 anos
Epilepsia Mioclônica Juvenil12–18 anosCrônico — necessita tratamento contínuo na vida adulta
Síndrome de West (Espasmos Infantis)< 12 mesesVariável — depende da causa; deve ser tratada urgente
Síndrome de Dravet< 12 mesesGrave — epilepsia crônica resistente a remédios comuns
Síndrome de Lennox-Gastaut3–5 anosGrave — persiste por toda a vida com crises múltiplas

Qual é o papel da genética no diagnóstico das epilepsias infantis?

A ciência demonstra que existe uma enorme diversidade genética por trás dessas síndromes. Mutações em genes completamente diferentes podem causar sintomas idênticos em crianças diferentes.

Por isso, os testes genéticos tornaram-se ferramentas de altíssimo valor no consultório do neuropediatra. Descobrir o nome exato da síndrome e a alteração genética envolvida permite traçar um tratamento personalizado, escolher os medicamentos com maior chance de sucesso e prever a evolução a longo prazo.

🧪 Atenção: Em epilepsias suspeitas de causa genética, o painel genômico é recomendado pelas principais diretrizes internacionais. O exame pode ser feito por amostra de saliva ou sangue e orienta diretamente as escolhas de tratamento.

❓ Perguntas Frequentes (FAQ)

❓ Perguntas Frequentes (FAQ)
P: Qual é a epilepsia mais comum em crianças? R: A epilepsia focal autolimitada com espículas centrotemporais (SeLECTS, antiga Epilepsia Rolândica) é a mais comum na faixa entre 5 e 13 anos, correspondendo a 15–25% dos diagnósticos pediátricos. A epilepsia de ausência também é muito frequente, representando 20% das epilepsias infantis.
P: Toda epilepsia infantil é grave? R: Não. A maioria das epilepsias infantis pertence ao grupo das formas autolimitadas e desaparece sozinha antes da adolescência, sem causar danos ao desenvolvimento. As formas graves (Dravet, Lennox-Gastaut) são minoritárias, embora exijam atenção intensiva.
P: O que é uma encefalopatia epiléptica? R: São formas severas de epilepsia em que a própria atividade elétrica anormal e repetida do cérebro causa dano neuronal progressivo, levando a atrasos no desenvolvimento, perda de habilidades e dificuldades cognitivas que vão além das crises em si.
P: Exame genético é necessário no diagnóstico de epilepsia? R: Não em todos os casos. É mais indicado em epilepsias de início precoce (antes de 2 anos), encefalopatias epilépticas, epilepsias refratárias sem causa estrutural e quando há histórico familiar. O resultado orienta diretamente o tratamento e o aconselhamento genético.
P: A síndrome de West pode evoluir para outra epilepsia? R: Sim. Cerca de 30% das crianças com Síndrome de West (espasmos infantis) evoluem para a Síndrome de Lennox-Gastaut. Por isso, o tratamento precoce e agressivo dos espasmos infantis é urgente para tentar proteger o desenvolvimento neurológico da criança.

Fontes de Referência Científica

  • Specchio N, Wirrell EC, Scheffer IE, et al. ILAE Classification and Definition of Epilepsy Syndromes With Onset in Childhood. Epilepsia. 2022.
  • Zuberi SM, Wirrell E, Yozawitz E, et al. ILAE Classification and Definition of Epilepsy Syndromes With Onset in Neonates and Infants. Epilepsia. 2022.
  • Pellinen J, Foster EC, Wilmshurst JM, et al. Improving Epilepsy Diagnosis Across the Lifespan. The Lancet Neurology. 2024.
  • Fasaludeen A, Jose M, Aswathi U, et al. Whole Exome Sequencing Based Diagnostics in Complex Childhood Epilepsy Syndromes. Clinical Genetics. 2026.

Revisão clínica e editorial

Revisado por: Dra. Paula Girotto Fonseca | CRM.SP: 146415 | Especialidade: Neuropediatria e Neurofisiologia – RQE 576141 e 576142

Publicado: 22/10/2026 | Atualizado: 22/10/2026

Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui a consulta com o médico especialista.