Efeitos Colaterais dos Remédios para Epilepsia: O que Esperar?

Por Dra. Paula Girotto
Publicado em 13 de agosto de 2026
Efeitos Colaterais dos Remédios para Epilepsia
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⚡ Resposta Rápida | Todos os medicamentos anticonvulsivantes podem causar efeitos colaterais — o perfil varia conforme a substância. Alguns afetam a cognição, outros o comportamento ou o sono. A escolha do medicamento deve sempre equilibrar o controle das crises com o menor impacto possível na qualidade de vida da criança. Nunca altere ou interrompa a dose por conta própria.

Por que todos os remédios para epilepsia têm efeitos colaterais?

Os medicamentos anticonvulsivantes são ferramentas essenciais e eficazes para controlar as crises epilépticas, mas é fundamental compreender que todas as medicações anticrise, sem exceção, podem causar algum tipo de efeito colateral. Isso acontece porque esses fármacos agem sobre o sistema nervoso central, uma rede extremamente interligada onde frear a atividade elétrica anormal também pode afetar funções normais.

Na prática neurológica, o tratamento sempre se baseia na balança do risco-benefício. O objetivo médico é encontrar e manter a medicação que melhor se encaixe no perfil único daquela criança — considerando sua rotina escolar, comportamento, padrão de sono e saúde como um todo.

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Qual é o impacto de cada remédio na cognição, comportamento e sono?

A tabela abaixo apresenta um comparativo clínico dos principais anticonvulsivantes por área de impacto. As cores indicam: vermelho = impacto negativo relevante; laranja = impacto moderado; preto = neutro; verde = possível melhora:

MedicamentoCognição/AprendizadoComportamentoSonoGestacão
FenobarbitalAlto impacto neg.Sedação altaMuito sedativoCautela
FenitoinaImpacto negativoNeutroSedativoCautela
TopiramatoLentidão / linguagemNeutro / irritabilidadeNeutroRisco alto — TEA
CarbamazepinaNeutroNeutroLeve sedaçãoCautela
OxcarbazepinaNeutroNeutroLeve sedaçãoDados limitados
ValproatoNeutroNeutroNeutroRisco alto — TEA/DI
LevetiracetamLeve melhoraIrritabilidade./agressividade.NeutroRisco TDAH
LamotriginaLeve melhoraNeutroPode causar insôniaMais segura
ClobazamLeve sedaçãoNeutroSedativoCautela
PerampanelNeutroIrritabilidade. (>15%)MelhoraDados limitados
Canabidiol (CBD)Neutro ou melhoraNeutroMelhoraDados limitados
FenfluraminaMelhoraMelhoraNeutroNão recomendado

⚠️ Importante: As falhas de memória ou alterações de comportamento nem sempre são culpa dos remédios. Muitas vezes, a própria gravidade das crises, as sequelas da lesão cerebral e o desgaste emocional da doença são os verdadeiros responsáveis.

Quais remédios causam maior impacto no aprendizado e na cognição?

A capacidade de concentração, memória e velocidade de raciocínio pode ser influenciada pelo tipo de anticonvulsivante escolhido:

  • Maior impacto: Fenobarbital (lentidão cognitiva), Topiramato (dificuldades específicas de linguagem — a sensação de ‘palavra na ponta da língua’ — e lentidão no raciocínio) e Fenitoina.
  • Perfil neutro: Carbamazepina, Oxcarbazepina, Valproato, Lacosamida e Perampanel não pioram inteligência ou desempenho escolar.
  • Possível melhora: Lamotrigina, Levetiracetam e Fenfluramina estão associados a melhorias em algumas áreas do raciocínio — provavelmente por reflexo do melhor controle das crises.

Quais remédios causam alterações de humor e comportamento?

Cerca de 15% a 20% das pessoas que utilizam tratamentos para epilepsia podem apresentar oscilações de comportamento induzidas pelas medicações. O risco é significativamente maior em indivíduos com histórico prévio de ansiedade ou depressão.

  • Levetiracetam e Perampanel (e em menor grau, Brivaracetam): principais medicamentos associados a irritabilidade, oscilações de humor e agressividade.
  • Essa reação adversa pode ser manejada com redução de dose, troca do remédio ou combinação com suporte psicológico.

Quais remédios afetam o sono? Existem opções que melhoram?

Praticamente todos os anticonvulsivantes podem causar algum nível de sonolência leve, especialmente nas primeiras semanas de tratamento ou ao aumentar a dose.

  • Mais sedativos: Fenobarbital, Primidona e benzodiazepínicos (Clobazam, Clonazepam) provocam os quadros de sonolência mais frequentes e severos.
  • Melhora no sono: Canabidiol, Perampanel e Pregabalina costumam regular e melhorar a qualidade do sono.
  • Risco de insônia: Lamotrigina pode estar associada a quadros de insônia em alguns pacientes.
  • Neutros para o sono: Valproato, Topiramato e Levetiracetam geralmente não prejudicam o descanso noturno.

Quais remédios têm riscos na gestação?

A exposição do feto a determinados anticonvulsivantes durante a gravidez exige planejamento médico rigoroso. Algumas substâncias aumentam o risco de problemas no neurodesenvolvimento pós-natal:

  • Ácido Valpróico (Valproato): Exige maior cautela em mulheres em idade fértil. Risco 2 a 4 vezes maior de a criança nascer com TEA e 2 a 5 vezes maior de deficiência intelectual.
  • Topiramato: Duplica a chance de autismo e aumenta em até 4 vezes o risco de atrasos intelectuais no bebê.
  • Levetiracetam: Dados recentes apontam risco aumentado de TDAH e transtornos de ansiedade na infância.
  • Lamotrigina: Considerada uma das opções mais seguras para o desenvolvimento do bebê durante a gravidez.

🤰 Planejamento familiar: Mulheres com epilepsia em idade fértil devem discutir com o neurologista os riscos de cada medicação antes de engravidar. O planejamento antecipado é fundamental — não interrompa o anticonvulsivante por conta própria durante a gravidez, pois as crises também oferecem riscos ao feto.

❓ Perguntas Frequentes (FAQ)
P: Se meu filho estiver sonolento após começar o remédio, devo parar? R: Não interrompa sem falar com o neurologista. A sonolência nas primeiras semanas é muito comum com a maioria dos anticonvulsivantes e geralmente melhora com a adaptação do organismo. O médico poderá ajustar o horário da dose (ex.: antes de dormir) para minimizar esse efeito.
P: O remédio pode estar causando o TDAH do meu filho? R: Algumas medicações (como o Levetiracetam) podem causar irritabilidade e dificuldade de foco que se parecem com TDAH. No entanto, o TDAH também é uma comorbidade genuinamente mais comum em pessoas com epilepsia. O neuropediatra fará a diferenciação e poderá ajustar o esquema.
P: Fenobarbital ainda é usado em crianças? R: Sim, especialmente como opção de baixo custo em cenários com acesso limitado a outros fármacos. No entanto, seu perfil cognitivo negativo o torna menos preferido quando há alternativas disponíveis. A decisão deve sempre equilibrar acesso, custo e impacto na qualidade de vida.
P: Os efeitos colaterais vão para sempre? R: Na maioria dos casos, não. Os efeitos mais comuns (sonolência, tontura, náusea) são temporários e surgem principalmente no início do tratamento ou ao aumentar doses. Os efeitos cognitivos dependem do medicamento e podem ser revertidos com a troca da medicação quando indicado.
P: Posso dar o remédio da epilepsia apenas quando a criança tiver crise? R: Não. Os anticonvulsivantes são tomados continuamente para manter um nível estável no sangue e prevenir as crises — não para tratamento agudo. Interromper ou dar só ‘quando necessário’ anula o efeito preventivo e pode precipitar uma crise grave.

Fontes de Referência Científica

  • Strzelczyk A, Schubert-Bast S. Psychobehavioural and Cognitive Adverse Events of Anti-Seizure Medications. CNS Drugs. 2022.
  • Besag FMC, Vasey MJ. Neurocognitive Effects of Antiseizure Medications in Children and Adolescents. Paediatric Drugs. 2021.
  • Honybun E, Cockle E, Malpas CB, et al. Neurodevelopmental Outcomes Following in Utero Exposure to Antiseizure Medication. Neurology. 2024.
  • Straub L, Hernandez-Diaz S, Bateman BT, et al. Prenatal Antiseizure Drug Exposure and Risk of Neurodevelopmental Disorders in Children. BMJ. 2026.

Revisão clínica e editorial

Revisado por: Dra. Paula Girotto Fonseca | CRM.SP: 146415 | Especialidade: Neuropediatria e Neurofisiologia – RQE 576141 e 576142

Publicado: 13/08/2026 | Atualizado: 13/08/2026

Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui a consulta com o médico especialista.