O que é a SeLECTS (Antiga Epilepsia Rolandânica)?

Por Dra. Paula Girotto
Publicado em 06 de agosto de 2026
SeLECTS
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⚡ Resposta Rápida | A SeLECTS é a epilepsia focal autolimitada mais frequente em crianças (15–25% dos diagnósticos pediátricos). As crises começam entre 3 e 13 anos, ocorrem quase sempre à noite e envolvem formigamento e contrações no rosto e na boca. O prognóstico é excelente: 92% das crianças estão livres da condição aos 12 anos e próximos de 100% curam até os 18 anos.

O que é a SeLECTS e por que o nome mudou?

A SeLECTS é a sigla para Epilepsia Autolimitada da Infância com Crises Centro-Temporais. Anteriormente chamada de Epilepsia Benigna da Infância ou Epilepsia Rolândica, trata-se da síndrome epiléptica focal mais frequente em crianças, correspondendo a 15% a 25% dos diagnósticos de epilepsia pediátrica.

Recentemente, a Liga Internacional Contra a Epilepsia substituiu o termo ‘benigna’ por ‘autolimitada’. Essa nova nomenclatura ressalta que a condição possui início na infância e apresenta remissão espontânea com o amadurecimento do paciente — mas que pode envolver desafios cognitivos sutis durante o período ativo.

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Quais são os sintomas e características das crises?

O início do quadro ocorre geralmente entre os 3 e 13 anos, com maior incidência na faixa dos 5 aos 8 anos, sendo mais prevalente no sexo masculino. As crises manifestam traços clínicos bastante específicos:

  • Sintomas Orofaciais: O episódio costuma iniciar com parestesia (formigamento) na região da boca, gengiva ou bochecha de um lado, seguida por contrações musculares involuntárias na face e faringe.
  • Dificuldade na Fala: É comum a ocorrência de salivação intensa e disartria (fala dificultada), embora a criança preserve a consciência durante o evento.
  • Padrão Noturno: Cerca de 80% das crises são noturnas ou ocorrem durante a transição para o sono. Os episódios são breves, com duração de segundos a poucos minutos.
  • Generalização: As contrações podem atingir o membro superior ipsilateral e evoluir para crises tônico-clônicas generalizadas, especialmente durante o sono profundo.

Como é feito o diagnóstico da SeLECTS?

A identificação baseia-se no histórico clínico das crises, no desenvolvimento psicomotor normal e em exames complementares:

  • Eletroencefalograma (EEG): Revela pontas centro-temporais de alta voltagem sobre uma atividade de base normal. Essas descargas tornam-se mais evidentes durante o sono.
  • Ressonância Magnética: Apresenta resultados normais na imensa maioria dos pacientes — o que auxilia na confirmação do diagnóstico.
  • História Clínica: Criança com desenvolvimento normal, crises noturnas típicas e EEG característico raramente precisa de exames adicionais para confirmar a síndrome.

A SeLECTS pode afetar o aprendizado e o comportamento?

Apesar do excelente prognóstico para as crises, o abandono do termo ‘benigna’ se justifica pela possível associação com desafios neuropsiquiátricos sutis durante o período de atividade da epilepsia:

  • Dificuldades de Aprendizagem: Podem surgir déficits temporários em áreas como linguagem, memória e atenção.
  • Transtornos Associados: Há uma incidência maior de TDAH, além de possíveis alterações de humor e comportamento.
  • Evolução Atípica: Em raros casos (1,3% a 4,6%), o padrão pode evoluir para uma encefalopatia epiléptica durante o sono, demandando intervenção médica rigorosa.

📚 Recomendação: Toda criança com SeLECTS deve passar por avaliações periódicas de aprendizado e comportamento durante o período ativo da epilepsia, mesmo que as crises sejam raras e a criança pareça bem.

Qual é o tratamento e quando ele é indicado?

Devido ao caráter autolimitado e à frequência predominantemente noturna, o tratamento medicamentoso é individualizado. Recomenda-se o uso de fármacos quando as crises são frequentes, diurnas ou prejudicam significativamente a qualidade de vida. Medicamentos como a Carbamazepina ou o Sultiame podem ser indicados nesses cenários.

Muitas famílias optam por não medicar, especialmente quando as crises são raras e exclusivamente noturnas. A decisão deve ser tomada em conjunto com o neuropediatra, avaliando impacto na vida escolar e social.

Qual é o prognóstico da SeLECTS a longo prazo?

O prognóstico a longo prazo é excelente. A remissão completa das crises ocorre geralmente entre 2 e 4 anos após o início do quadro:

IdadeTaxa livre de crisesObservação
Aos 8–10 anosMaioria já sem crises frequentesPeríodo de maior atividade das crises (pico entre 5 e 8 anos)
Aos 12 anos92% livres de crisesGrande maioria já está em remissão clínica
Aos 14 anos97% sem crises há 5+ anos e sem medicaçãoRemissão quase universal antes do final da adolescência
Aos 18 anos~100% de remissãoCura total praticamente garantida ao final da adolescência
❓ Perguntas Frequentes (FAQ)
P: SeLECTS é uma epilepsia grave? R: Não. É a forma mais leve e melhor prognóstica de epilepsia focal na infância. A imensa maioria das crianças cura completamente até os 18 anos sem sequelas. O maior desafio é monitorar o impacto cognitivo temporário durante o período ativo.
P: Toda criança com SeLECTS precisa tomar remédio? R: Não necessariamente. Se as crises são raras, breves e ocorrem apenas à noite, muitos neuropediatras optam por acompanhamento sem medicação. O tratamento é indicado quando as crises são frequentes, diurnas ou estão impactando o aprendizado e a qualidade de vida.
P: A criança com SeLECTS pode praticar esportes? R: Sim. Como as crises são quase exclusivamente noturnas e a criança preserva a consciência na maioria dos episódios, a prática esportiva geralmente não é restrita. O neuropediatra avaliará cada caso individualmente.
P: Por que a criança baba tanto durante a crise da SeLECTS? R: Porque as descargas elétricas cometem a região rolando (centrotemporal) do cérebro, que controla os músculos da boca, língua, faringe e glândulas salivares. A estimulação anormal dessas áreas causa salivação intensa e dificuldade para engolir e falar.
P: SeLECTS pode virar uma epilepsia grave na adolescência? R: Em menos de 5% dos casos pode evoluir para uma encefalopatia epiléptica durante o sono (CSWS). Essa evolução atípica exige acompanhamento médico rigoroso com EEGs durante o sono. Na grande maioria, a remissão espontânea ocorre antes dos 18 anos.

Fontes de Referência Científica

  • Han Y, et al. rTMS Improves Cognition in Patients With Self-Limited Epilepsy With Centrotemporal Spikes. CNS Neuroscience & Therapeutics. 2025.
  • Ross EE, et al. The Natural History of Seizures and Neuropsychiatric Symptoms in Childhood Epilepsy With Centrotemporal Spikes. Epilepsy & Behavior. 2020.
  • Tan HJ, et al. Comparison of Antiepileptic Drugs for Children With Benign Epilepsy With Centrotemporal Spikes. Cochrane Database. 2014.

Revisão clínica e editorial

Revisado por: Dra. Paula Girotto Fonseca | CRM.SP: 146415 | Especialidade: Neuropediatria e Neurofisiologia – RQE 576141 e 576142

Publicado: 06/08/2026 | Atualizado: 06/08/2026

Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui a consulta com o médico especialista.